quarta-feira, 13 de abril de 2011

Coisas de cachorro doido

Cuidado! Dizem que sou perigoso. Tenho facas afiadas e outros objetos cortantes. Rompo suas artérias e bebo teu sangue, se deixar colo nos teus ossos e não largo mais. É que tenho um pouco de cachorro abandonado. Porto aquelas velhas manias de quem vira-lata procurando filé de atum em meio as quinquilharias. E não perco tempo. Nenhum pastor alemão, nem mesmo aqueles bem opulentos de retórica, conseguem me fazer desistir. E se desisto, é fato raro e logo passa. É só ir ao bar e pedir: Me dá uma dose de conhaque que é pra alimentar minha loucura.

(rodrigo vaz)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Tranquilamente perturbados

Pedro se virou para o médico e perguntou: "Doutor, quanto tempo ele ainda tem?" E o médico, sobressaltado lhe respondeu: "O mesmo que nós!" O estagiário, que mesmo jovem já havia se embalsamado no estudo de barbitúricos,lítios e outras verdades totais, entendeu que o pobre sujeito de estrutura psíquica incômoda precisava era de morfina. No dia seguinte, este nada sentia. Vendo a imprudência cometida, o médico decidiu que os três precisavam era de uma boa corrida. Deram-se as mãos e pularam os muros do sanatório.

(rodrigo vaz)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Báscula


Tenho que me virar com esses pedaços mal resolvidos de mim. Quando criança, tinha medo da fada-dos-dentes, diziam que ela capturava crianças que andassem no escuro. Isso me fez recuar sempre que encontrava uma sombra. Até que um dia resolvi tentar um acordo que encerrasse esse embate que mais parecia a Guerra das Duas Rosas. Luz e sombra até então não haviam cessado de disputar o trono. Pus um espelho sob a face e olhei pelos olhos da imagem. Fechei meus olhos. Abri-os. Instantes depois, mergulhei na piscina. Perdi a hidrofobia.

(rodrigo vaz)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Pensando na chuva ou Do outro lado da janela da sala


Será que quando chove é porque as nuvens choram ou será que estão fazendo pipi na gente? Ou melhor, será que chuva é suor de nuvem?

(rodrigo vaz)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Depois que a panela ferve


Levantei-me imponente e falei pra mim mesmo: "Serei um novo homem!" Por instantes, pensei em como realizaria tal mudança. Seria preciso um cerimonial? Ou, quem sabe, um funeral? Não, não! Ia haver muito chororô, disse-me-disse, e pessoas interessantes apenas nos comes e bebes. Decidi que deveria ser de modo simples e natural como uma nuvem cinza após um dia de calor. Fui ao asfalto e evaporei. Dias depois, voltei em gota.

(rodrigo vaz)

domingo, 13 de março de 2011

Ele&Ela


Ele

coração imprevisto
caído no chão
aos pedaços

Ela

o cão faminto
cercando
os estilhaços
(rodrigo vaz)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Pontos nevrálgicos


Sou aquela tua contusão no pé esquerdo. Aquela dor de cabeça após inúmeras taças de vinho. Aquele peso nas costas implorando um pouco de atenção. Sou aquelas mãos tremendo de medo. Aquela boca roçando saliva. Sou o tímido beijo no rosto à espera de um quero mais. Sou o milagre de tua chegada. E o coração batendo em silêncio. Sou as cinzas da "bituca" esquecida no chão.

(rodrigo vaz)