terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Lentes ou Uma Análise Multifacetada

Alguns precisam de óculos para ver melhor
Esses eu não os suporto!

Gosto de visuais multifacetados
De colorações tonais imprevisíveis
Os óculos que eu tenho possuem lentes outras
Não estão de acordo com as tendências
Na verdade, elas nem existem

Da superfície de registro do meu nervo óptico
Eu me atento as intensidades puras da minha superfície de produção
E a minha superfície de consumo se torna comunidade de sentidos
E pelo humor vítreo que carrego comigo
Percebo as gotas de sal daquilo que chamam saudade

(Rodrigo Vaz)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Colméia

ela tem a tez molhada de alfazema
perolada com açúcar granulado
chocolate meio amargo
duas faces de maça verde
doce, olhos de jabuticaba

lábios carnudos, grandes lábios pessegados
pés, braços e antebraços de pura energia
vitamina C

(rodrigo vaz)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Paredes de concreto ou O que vejo da minha sala

Hoje eu presenciei um nó
Não é nó de atar, de cadarço de sapato
Nem nó de sacola, de rede

Na verdade, esse nó a gente sente
É nó da garganta
Que impede que qualquer palavra seja expelida
Que qualquer beijo e abraço seja suficiente
Que qualquer choro seja lágrima de sal

E não é só isso!
As correntes já estão na calçadas
Em frente à um muro
Que dá acesso para o abismo

Il ya plusieurs façons de tomber dans l'abîme, mais une seule fait le saut. Lorsque vous réussissez, faites tomber ce mur et de construire un autre. D'autres lacunes viendra." - dizia a escrita de giz na parede do muro.

(Rodrigo Vaz)

domingo, 6 de dezembro de 2009

Afins

Eu tou afim dum reggae
Eu tou afim dum reggae e dum vinho
Eu tou afim dum reggae, dum vinho e dum cigarro de menta
Eu tou afim do Crato
Eu tou afim da minha prova de domingo
Levar um manteiga e até comê-la com pimenta

Eu tou afim dum reggae
Eu tou afim dum reggae e dum vinho
Eu tou afim dum reggae, dum vinho e dum beck
Eu tou afim de Movéis Coloniais de Acaju e um beijo na boca
Eu tou afim de um açaí geladinho
Eu tou afim de uma porção de batatas-fritas com cerveja em Orlandinho

Eu tou afim de soltar pipa
Eu tou afim de ir pra Pipa
Eu tou afim de um café

Eu tou afim de praia, sol, pessoas e mar
Eu tou afim de ler um bom livro na varanda dum sítio
Com vento e chuva

(Rodrigo Vaz)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Fotos de Família

Como mais uma luta
Rasgo com meus dentes a primavera
E solto no ar algumas golfadas
Que voltam, escoam
E constroem outros territórios
Outros modos de existir

Como mais uma luta
Porque quero expandir a vida
Para criar/construir
Vomitar o que está fora
Fazer passar algo pelo dentro
Peça por peça montando de novo

Como mais uma luta
Mas deixo um pedaço pra ti
Necessito de alguns cortes-restos
Que possibilitem outros fluxos, outras vias
Intensidades experimentando em meandros
O que resta quando tudo foi retirado

(Rodrigo Vaz)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Gatos pardos e cães que ladrem

E hoje ele acordou
Tomou café
Comeu um pão
Passou a noite remoendo o agora

E hoje ele acordou
Não tinha pão
Apenas um café ralo
Passou a noite latejando o instante

Durante o dia, um expele golfadas
O outro vomita tortuosos pensamentos
Fluidos e fugazes
Humanos

À noite, um pula
O outro espanta
Um desatina
O outro escapa

Retilíneos, seguem em linha reta
Linha do destino que parece traçada
Apanhados por ela, um aplaude
O outro simplesmente apanha

Na seta que aponta: o estupor
Disperso, renego, nêgo
Bruto que ecoa latidos
Pertubando o sono dos justos

(Rodrigo Vaz)

domingo, 25 de outubro de 2009

Alfenim*

De tarde, depois que sopra aquele vento agreste
Me deito e durmo
E sonho com aquela tarde
Com bichos, com árvores
Com nuvens

Ao anoitecer, vagueio pelo Centro
E sinto a bruma daquela aréola que se põe
E tenho medo, me sinto frágil, inconstante
Subjugado pela crosta humana que me cobre
Quase nu

E depois da noite Severina
Quando o pavio da lamparina já está no fim
O dia raia em gotas de tocaia
Doce e teimoso
Feito um alfenim

(Rodrigo Vaz)

*Confeito alvíssimo, sólido mas delicado e quebradiço, preparado com melado, que se deixa ao fogo até atingir um ponto especial, quando, então, se retira a massa do fogo, estendendo-a sobre um mármore ou qualquer outra superfície fria. Então, puxa-se a massa com as mãos polvilhadas de goma até alvejar, e solidificar, podendo-se, antes, dar-lhe as mais variadas formas.